Estamos próximos do início do processo de vacinação, longo e exigente, contra o vírus que nos mudou a vida.
Foram priorizados 3 grandes grupos de utentes, onde pesou, para o primeiro grupo, o risco da gravidade da doença, o ser elemento essencial à atividade assistencial em saúde e pertencer às forças de segurança ou serviços críticos.
Importa agora perceber se temos ou não capacidade de organização para a vacinação, que tantas vezes não corre bem.
Colocam-se as seguintes questões:
1º – Onde vão ser administradas as vacinas no SNS? Nas já habituais USF ou UCSP, interferindo na atividade assistencial, ou em locais readaptados, como ocorreu com as Unidades de Atendimento a Doentes Covid?
2º – Quem vai administrar as vacinas? Os enfermeiros dos Cuidados de Saúde Primários (CSP)? Vamos contratar profissionais para este efeito? Vamos mobilizar outros profissionais de saúde para esta vacinação em massa?
3º – Que segurança será garantida quanto ao transporte e armazenamento das vacinas? Existirá acompanhamento das forças de segurança? Será garantida a segurança para os profissionais de saúde quando sofrerem assédio para vacinar pessoas fora do seu momento de prioridade?
4º – Como vão entrar em contato com as pessoas do 1º e 2º grupos prioritários? Têm alguma estratégia delineada? Sabem quem são e onde estão? Como vão proceder as autoridades de saúde, se não conseguirem entrar em contacto pelas vias normais (telefone ou carta postal)?
5º – Qual a estratégia de comunicação a utilizar pelos serviços de saúde? Como informar?
6º – Ocorrerá ainda mais interferência na atividade assistencial? Serão desviados ainda mais recursos para a vacinação, destapando ainda mais a manta, que já é curta, dos CSP? As doenças crónicas e os utentes vulneráveis vão passar para terceiro plano (desde há muito já estão em segundo plano)?
Colocadas as questões, permitam a minha sugestão.
Apesar de ser tudo novo e ter de ser resolvido rapidamente, sou de opinião de que importa focalizar a vacinação contra o coronavírus num único local, em cada concelho. Num local de bom acesso (transportes públicos e privados), amplo, coberto, arejado, com estabilidade térmica (quente), de fácil higienização e que permita um trajeto unidirecional, com 4 zonas bem definidas: acesso/fila, secretariado, vacinação e sala de espera após vacinação (aguardar efeitos pós vacinais imediatos). Só se poderão deslocar lá os utentes convocados e com marcação prévia. Então, devemos retirar o processo de vacinação das Unidades de Saúde habituais, para não afetar a atividade assistencial normal. Todos os utentes com mobilidade muito reduzida (que necessitem de domicílio) devem ser vacinadas na sua residência e para tal devem ser criadas equipas de saúde para o efeito. Todas as estruturas residenciais para idosos (ERPI), formais ou informais, regulares ou irregulares, devem também ser visitadas por estas equipas, que devem vacinar todos os residentes, bem como os funcionários com critérios.
Se forem necessárias duas doses da mesma vacina, após a primeira toma, dever-se-á proceder ao agendamento automático para a segunda toma.
O horário destinado à vacinação não pode nem deve ser um problema, devendo os profissionais vacinar num largo espectro de horas, das 7h às 22h, por exemplo, e todos os dias da semana (incluindo fins de semana e feriados). Devem ser equipas de vacinação com profissionais fixos, com orientações claras (sem subjetividade), com elementos em prevenção para as ausências não programadas, para desta forma se minimizar o erro e maximizar o processo.
Apesar da intenção dos responsáveis da saúde de que os utentes da primeira prioridade sejam vacinados até fevereiro, não quer dizer que não possam ser todos vacinados já em janeiro, se formos suficientemente ágeis. Isto se, lá está, as vacinas vierem em quantidade suficiente.
Devemos então apostar já no rigor e não deixar para amanhã o que já deve estar preparado hoje.

Bem haja a vacina e bem hajam todos os utentes.

João Paulo Coelho
Presidente da Direção da Associação Embrakara – Associação dos Amigos do ACES de Braga

Publicado no Diário Do Minho no dia 18 de Dezembro de 2020.

Leave a Comment

Embrakara

A associação Embrakara tem como fim desenvolver junto dos seus associados, atividades relacionadas com a divulgação e proteção dos direitos enquanto utentes do SNS, com a promoção de saúde e bem-estar.

Contactos

Largo Paulo Orósio, R/C 4700-036 Braga  
Telefone: +351 917 345 582

Siga-nos

Subscrever

Subscreva a nossa newsletter para ficar informado sobre as nossas actividades.